26 de out de 2015

Amores Póstumos



Há uma lembrança que não sai de mim. 
Um homem de pé, em frente a um jazigo coberto de flores. Todo o lugar é enfeitado com essas mesmas flores. A imagem é de quase um jardim com aquele homem ali, estático e reflexivo, totalmente alheio ao mundo dos que vivem. 
No que será que ele pensava? 
Que dores esses pensamentos despertam nele? 
Quem é ele?
 Jamais saberei. A vida seguiu e a cena permaneceu, como  lembrança de algo que aconteceu ha minutos atrás, durante dias. Sem outra alternativa, comecei a refletir sobre os meus mortos. Não especificamente  os que se foram desta vida, e sim da minha vida e do meu coração. E aqui estou eu no meu jardim mental, estática e reflexiva.

Nunca fui muito sentimental, não sou. Clarice Lispector dizia que ‘todo amor é eterno, se acabou é porque não era amor’. Nunca consegui digerir isso, me soa estranho! Sempre achei que o amor em todas as suas representações precisa ser alimentado, cuidado. Se não, ele acaba sim. É como se ele fosse uma plantinha, necessita de sombra, água e ar fresco para florescer, 'esse tipo de analogia sempre me faz rir'. Mas é assim mesmo que penso e vejo o amor. Uma plantinha delicada que necessita de muitos cuidados. Na ausência desses cuidados  a planta míngua, murcha e morre. Com o amor acontece o mesmo. Sem estímulos ou com os estímulos errados, ele se torna frágil e suscetível a toda forma de danos. Na impossibilidade de tornar-se eterno, ele morre. Amar sozinho é uma prática possível, é verdade, muitos adoecem por conta dessa patologia. Não queira ser um deles. Não cogite isso, não queira isso pra você.

Lamentar perdas ou chorar os mortos não é algo que eu goste muito de fazer. Talvez por isso, alguns tenham levado tanto tempo pra ir embora definitivamente da minha vida. Aprendi finalmente com isso que, assim como o amor precisa ser cuidado, a dor precisa ser encarada e pranteada para que ela se vá. Não adianta driblar lembranças se metendo em lugares lotados ou trazendo pessoas pra sua vida que terão a ingrata função de preencher um vazio. Isso tudo está dentro de nós e precisa ser resolvido lá dentro, nunca ao contrario. Não dá pra fugir de nós mesmos. Conheço muita gente que tentou, nenhum deles obteve sucesso, então não queira isso pra você também.

O sofrimento é comum a todos nós – Não por acaso somos da mesma espécie. Nós os humanos, todos nós mesmo, sem exceção, sofrem quando se sentem fracassados no amor e na vida. O contexto de cada sofrimento são diferentes, claro! Mas a dor, aquela que corta o peito e escurece a nossa alma é igualzinha. Pode ter a certeza que no Nepal há um monge sereno e calado que sofreu essa dor, o chefe do senado americano, a fritadeira de acarajé na Bahia, o frentista no sul do país, a médica que te atendeu da última vez que você precisou de cuidados, também. Não há como fugir! 

– Quando nos tornarmos capazes de vivenciar a dor de forma plena e racional, ela se torna tão mais simples. No momento em que me abri para sentir e refletir sobre ela, tudo se tornou mais claro, leve e menos dolorido. Por mais absurdo que pareça essa minha ideia, experimente mexer na sua dor. Desenterre as  coisas. Separe uma dor da outra como se ela fosse uma tangerina, sabe? Gomo por gomo? Disponha-os na sua mente, separe um do outro, olhe para cada um deles, avalie 'o que' te leva ao 'o quê'? Amasse, esprema. Observe o suco pingar entre seus dedos e perceba; Uma vez que você deixou de evitá-las, a dor diminuiu. Se tornou menos assombrosa e aos poucos, em breve, você irá considerá-la até banal.

“O que começa errado termina errado” –  “Foi o que tinha que ser”
– Quantos clichês não é? Mas olha, essas frases feitas, comumente chamadas de ditados populares, não se tornaram tão conhecidas por acaso. Frases como essas tem encerrado discussões físicas e metafísicas. Provocam reflexões e levam pessoas a se darem conta de suas próprias mazelas por décadas e décadas. Escolha o seu clichê. Reflita e encerre o que precisa ser encerrado na sua vida. O que começa errado termina errado? Foi o que tinha de ser? Será? Pense sobre isso e tire suas conclusões/lições.

Torne a sua dor construtiva – Autopiedade e comiseração são coisas de gente fraca. E ser fraco, é questão de escolha(como diz um outro ditado, mas que para mim, funciona perfeitamente!). Chorar e nos compadecer da nossa sorte é normal e todos fazemos isso. Faz parte do processo durante trinta segundos apenas, no trigésimo primeiro, seque suas lágrimas e parta pra outra. Quanto mais submissos formos perante a dor, mais enraizada ela se torna. Então reaja, analise a causa do seu sofrimento até que ele se torne compreensível e passível de ser administrado.

O que nos marca fica.
Não se iluda com a ideia de que esquecerá aqueles momentos ou passará por aquela pessoa na rua e nem irá reconhecê-la. Nosso cérebro guarda em caixas especiais momentos marcantes, bons ou ruins. E você precisa sim lembrar, reconhecer e quem sabe agradecer? Mesmo que mentalmente a oportunidade de ter vivido com aquele ser que é humano como você, momentos que fazem parte da sua história. Feito isso, o clichê que caberia aqui é o celebre “segue sem olhar pra trás”. Mas se o passado é nossa lição para vivermos melhor o presente, olhe para trás sim e em seguida se afaste do jazigo. 


2 comentários:

  1. A dor que aceitamos sentir, as lágrimas que aceitamos derramar... Essa dor aperta, mas ela afrouxa. Com o passar do tempo, e com a repetição do processo, muda a dimensão das dores que sentimos. Nos tornamos mais hábeis em lidar com elas.

    Já a dor que teimamos em não sentir, essa é danada...

    Lindo texto!!!

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    1. A negação atrasa tudo né?
      Dizer sim, mesmo a dor, é dizer: _Ok! Pode ir...Já entendi!

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